13 de março de 2022 às 10:02
13 de março de 2022 às 10:03
PASTOR EVANGÉLICO OSÓRIO JOSÉ LOPES JÚNIOR. FOTO:REPRODUÇÃO METRÓPOLES
Com quase 100 mil inscritos em seu canal no YouTube, o pastor evangélico goiano Osório José Lopes Júnior alimenta diariamente suas redes sociais com fotos e vídeos. Nas gravações, o religioso acalma o coração de milhares de fiéis que desembolsaram fortunas após serem convencidos a investir em uma espécie de título apresentado por ele como Letra do Tesouro Mundial.Supostamente lastreado em ouro, os papéis teriam um valor “bilionário”. O pastor dizia que os títulos já contariam com autorização do governo federal, por meio do ministro da Economia, Paulo Guedes, para ser pagos. Uma afirmação claramente falsa, uma vez que o ministro nada tem a ver com os golpes aplicados pelo religioso.Na tentativa de garantir credibilidade, o pastor usa, além no nome dos ministérios, logomarca de entidades financeiras, como Banco Mundial e o Banco do Brasil, em uma plataforma de investimento conduzida pelo grupo.
Há pelo menos nove anos, o pastor viaja país afora e, com a ajuda de arregimentadores, capta novos investidores interessados em receber até 100 vezes o valor aportado assim que os títulos estiverem prontos para ser resgatados. Em sua maioria, os compradores são fiéis de igrejas evangélicas, além de parentes e amigos próximos ao pastor. Em apenas um dos grupos criados no Telegram, há cerca de 8 mil “clientes”.
VÍDEO
Carismático, com oratória afiada e abusando de passagens bíblicas para reforçar um discurso de fé, o pastor ganhou fama e dinheiro nos últimos anos. De acordo com vítimas que viram suas economias descerem ralo abaixo após falsas promessas de rentabilidade, o pastor moraria em uma confortável casa num dos condomínios fechados de Alphaville, em São Paulo.A coluna conversou com uma das vítimas que caiu no conto do pastor Osório. Morador de Petrolina (PE), um homem de 38 anos contou que conheceu o negócio oferecido pelo religioso por meio de um amigo. “Ele botou R$ 80 mil acreditando que receberia entre R$ 500 mil e R$ 1 milhão. Eu investi pouco, cerca de R$ 1 mil. A transferência foi por PIX direto para a conta do pastor”, disse.A vítima relatou que todos os investidores assinavam um “termo de acordo e participação financeira e confidencialidade”. Para transparecer uma falsa sensação de segurança, o religioso repete, de forma insistente, todos seus dados pessoais durante os vídeos postados nas redes sociais. “Ele fala a todo instante o CPF e o número de identidade para dizer que não tem nada a esconder. No entanto, as promessas de pagamento são vazias e nunca ocorrem”, afirmou.
11 de fevereiro de 2022 às 10:00
11 de fevereiro de 2022 às 10:15
FOTO: REPRODUÇÃO
Mão apertando o períneo até dar choque, língua esparramada
sobre o queixo e ponta dos dedos fazendo cócegas no cocuruto. Isso tudo com pés
paralelos, joelhos dobrados, esfíncter contraído, pélvis para frente, peito
estufado e respiração ofegante. A postura é complicada, mas tento me concentrar
para poder desvendar as emoções varonis que me habitam. Em pé, entre outros
sete participantes. Pele com pele, pelo com pelo.
O curso de vulnerabilidade masculina anunciava o lema
“encontre a conexão com você mesmo e com o outro”. Para chegar até lá
era preciso ir ao Sumarezinho, bairro de classe média-alta da zona oeste de São
Paulo, virar em uma rua arborizada, abrir o portão de uma mansão, atravessar um
jardim e adentrar uma edícula — formada por um quarto fechado para dar
privacidade às práticas com nudez, e outro envidraçado para as com roupa.
Dentro da guarita na calçada em frente, o vigia da rua mal desconfiava do entra
e sai: “Me falaram que o pessoal aí faz ioga”, diz à reportagem.
O terapeuta Daniel Bittar, 31, é quem guia o grupo.
“Para atingir o estado vulnerável, você tem que se entregar às sensações e
às emoções. Permitir ser observado e ser tocado”, instrui, logo no início.
No meio dos exercícios, há choros, gritos e até náuseas. Mas
nada que chame a atenção dos vizinhos. “Uma vez experimentamos fazer uma
catarse no pátio e baixou até polícia, porque foi algo tão intenso que o
pessoal achou que estava acontecendo um crime aqui”, lembra Bittar.
Vários tipos de aula sobre masculinidade surgiram nos
últimos tempos. Em um extremo estão os coaches de virilidade, que prometem
trazer de volta o macho perdido, após algumas sessões de murros no peito e
urros primais. Do outro, há retiros que desconstroem esse ideário, abrindo
possibilidades em uma época de patriarcas cambaleantes. Entre eles, a ênfase
pode ser mais psicológica, sociológica, filosófica ou espiritual — a vivência
de Bittar vai mais por essa última linha.
Couraça de culpas
Sento no chão diante de um rapaz búlgaro. Entrelaço braços e
pernas com ele. Fecho os olhos, regulo a respiração e seguro as mãos dele.
Começa uma meditação ativa ao som de uma trilha musical fofinha e das
orientações de Bittar. Ele fala para sentir o calor do sol e do magma
percorrendo o corpo de cima a baixo, com rosas brotando no peito, o cérebro
virando um cristal, entre outras imagens inspiradas no budismo tibetano.
Ao final da atividade, cada um dá seu depoimento. Conto que
senti uma doçura e uma delicadeza, inimaginável para mim até ali para um
encontro de cavalheiros. O terapeuta traduz a sensação: “É porque o afeto,
o toque, o carinho e a respiração no exercício movimentam uma energia que ajuda
no processo de ‘desencouraçamento’.”
Passar bloqueios emocionais para atingir o ser sensível e
sentimental, aliás, é a ação inicial e principal do curso. Deixar mochilas e
roupas no hall de entrada é simples diante de tirar o peso das costas de
históricos de abusos, dores e medos relatados ali.
“Eu mesmo tenho essas barreiras. Você se livra de uma e percebe outra. O egoísmo e narcisismo faz você se fechar”, confessa Bittar. “Me acho superespiritualizado e, de repente, me vejo sentindo inveja de outro homem na praia porque ele é mais alto ou mais musculoso que eu. Esse sentimento tem de ser trabalhado, não adianta jogar num canto para seguir com minha autoimagem de namastê.”
4 de fevereiro de 2022 às 08:32
4 de fevereiro de 2022 às 08:32
FOTO: PIXABAY
Uma pesquisa feita pelo Gleeden, aplicativo de encontros
extraconjugais, revelou que 45% dos heterossexuais já pensaram em ter um
relacionamento homossexual. De acordo com o levantamento, 20% das pessoas que
se declaram hétero afirmaram já ter transado com alguém do mesmo sexo, mas
apenas 18% delas apostaram na relação homoafetiva.
Embora os números sejam significativos, apenas 10% das
pessoas inscritas no aplicativo se declaram bissexuais e 1% homossexual. Mas
não é só, os dados também mostraram que 70% dos participantes da pesquisa
acreditam que todas as pessoas poderiam ser bissexuais. Para eles, o que impede
isso são as condições morais, culturais e religiosas.
“Há vários motivos que explicam a tendência ascendente da
bissexualidade. Um deles se deve à identificação da própria sexualidade e outro
por curiosidade e necessidade de experiências de sexos mais diversos”, afirma
Laia Cadens, psicóloga clínica especializada em sexologia e conselheira do
Gleeden. Ela ressalta que 96% dos usuários que participaram do estudo concordam
com a bissexualidade e não a condenam.
A amostra também destaca que mulheres costumam tender mais para o lado da bissexualidade do que homens. Laia explica que “as mulheres, muitas por insatisfação ou tédio, viram novas oportunidades se abrirem e satisfazerem suas necessidades sexuais”.
Além disso, destaca que muitos homens passam pela bissexualidade quando estão em dúvida sobre a orientação sexual. “Muitos deles afirmam que a ideia de fazer sexo com homens está na cabeça deles e fantasiam com isso, mas do pensar à execução há um processo.”
13 de dezembro de 2021 às 08:15
12 de dezembro de 2021 às 14:38
FOTO: DIVULGAÇÃO
O brasileiro tem feito menos sexo, com a vontade de transar
lá em baixo e consumindo cada vez menos pornografia. É o que uma pesquisa
realizada pela Datafolha e encomendada pela plataforma Omens revelou.
Para cerca de 30% dos entrevistados, a frequência do sexo se
manteve igual durante a pandemia. E para menos de um quinto, o número de
relações aumentou. O motivo apontado é o cenário preocupante durante e pós a
crise sanitária.
De acordo com o urologista João Brunhara, da Omens, o mesmo
foi observado em outros países: “As pessoas perderam libido e frequência de
relações com a chegada da pandemia”, apontou.
Menos sexo, mais pensamento sexual
Mas, nem tudo foi broxante. Enquanto a frequência sexual
diminuiu, a pesquisa também apontou para o aumento de pensamentos sexuais entre
os homens: “Possivelmente isso ocorreu em resposta a uma possibilidade menor de
ter relações de fato”, sugere João. De acordo com a especialista em sexologia
Michelle Sampaio, o aumento dos pensamentos sexuais ocorre quando a pessoa está
menos exposta as relações sexuais em si. “Outro ponto que pode corroborar com
isto é o fato dos homens ainda terem um maior consumo de pornografia do que as
mulheres, como a própria pesquisa apontou”.
A pandemia brochou?
De acordo com os especialistas, a pandemia foi responsável
pela diminuição da libido. Michelle ressalta que fatores emocionais podem
contribuir na diminuição do desejo sexual: “Outras pesquisas levantaram um
aumento de sintomas de ansiedade, stress e depressão na população devido ao isolamento
social, tantas mortes e a pandemia em si”.
Menos pornografia
Outro dado da pesquisa é a redução do consumo de
pornografia. De acordo com João, esse dado pode ser reflexo de uma redução da
libido que também foi verificada em outros países.
Para Michelle a preocupação com a pandemia pode ser
responsável pela falta de interesse no consumo desse tipo de conteúdo. Mas,
apesar dos dados da pesquisa, a sexóloga viu crescer na prática clínica, o
aumento do consumo de pornografia devido à diminuição no números de encontros
para relações sexuais.
Preocupação é inimiga do tesão
Quando estamos estressados, várias alterações hormonais
podem acontecer e prejudicar a libido. “A queda da testosterona acaba diminuindo
a libido em homens e mulheres. Além disso, o aumento da adrenalina corta a
ereção nos homens e nas mulheres dificulta a lubrificação vaginal”, esclarece
João.
A sexóloga reforça que além dessa resposta fisiológica, em situação de estresse e preocupação o pensamento fica voltado para a resolução de problemas, ou seja, desviado daquilo que pode ser prazeroso e longe de pensamentos mais eróticos.
6 de dezembro de 2021 às 16:30
6 de dezembro de 2021 às 14:55
NO BRASIL, ÓBITOS DECORRENTES DA COVID-19 ULTRAPASSAM 600 MIL E IMPACTAM INCALCULÁVEIS PARENTES E AMIGOS. FOTO: DIVULGAÇÃO
Lidar com a morte não se revela fácil. Atualmente, em meio a
uma das maiores crises sanitárias já enfrentadas pela humanidade, o Brasil
contabiliza mais de 600 mil mortes pela covid-19, de acordo com dados do
Ministério da Saúde (MS), sendo, portanto, incalculável o número de amigos e
familiares diretamente afetados por essas perdas. Segundo a psicóloga
especialista em luto do cemitério e crematório Morada da Paz, Beatriz Mendes,
“é normal surgir a sensação de revolta diante da morte”.
Para passar por esse momento de maneira mais saudável,
“é preciso processar a perda para, então, aceitá-la, ainda que isso seja
doloroso”, ressalta ela, adicionando que o luto é um processo natural de
resposta a uma quebra de vínculos. Assim, quando se perde alguém ou algo
significativo na própria vida, mostra-se fundamental viver esse momento para
viabilizar a aceitação das passagens.
Luto antecipatório
Em 17 de janeiro deste ano, em São Paulo, a enfermeira
Mônica Calazans, de 54 anos, foi a primeira pessoa a receber a vacina contra a
covid-19 no Brasil. A campanha de imunização se revela uma esperança no
enfrentamento da pandemia.
Mesmo assim, muitas pessoas sofrem com o “luto
antecipatório”. Esse termo é usado para definir a sensação de que, talvez,
pessoas queridas não voltarão do hospital, o que aciona o gatilho do sentimento
de perda e todas as consequências emocionais que a situação evoca, esclarece a
psicóloga.
Aceitação
Os rituais diante da morte são muito importantes, uma vez
que regularizam as experiências, fornecem um lugar seguro, desde um lugar
físico, até um lugar afetivo importante para expressão das emoções, para que as
pessoas possam vivenciar este momento juntas.
Por isso, ainda segundo Beatriz, a ida ao cemitério pode
contribuir para a adaptação à perda. “O local no qual estão depositados os
restos mortais simboliza o fim, mas também pode ser visto como um lugar de
reencontro. Ademais, esse ritual contribui para a ativação da memória afetiva,
criando, assim, a saudade”, frisa a psicóloga do luto.
Já para os que já partiram e foram cremados, seus entes
queridos podem, de acordo com Beatriz, ter um local de contemplação em um local
que desperte boas memórias, a fim de se “aproximar” daquele que já se
foi e ressignificar sua partida.
21 de setembro de 2021 às 09:30
21 de setembro de 2021 às 07:42
FOTO: ILUSTRAÇÃO/GETTY
Um caso de traição dentro da residência do casal gera
indenização por danos morais. O entendimento é da 4ª Câmara de Direito Privado
do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP) ao manter a condenação de um homem
a indenizar a ex-mulher por ter levado a amante para dentro da casa da família.
O valor da reparação foi fixado em R$ 20 mil.
De acordo com os autos, desconfiada da infidelidade do
marido, a autora buscou os vizinhos para pedir imagens das câmeras das
residências, quando descobriu que ele havia levado a amante para a casa do
casal, onde moravam junto com os três filhos. A circunstância, de acordo com a
mulher, ocasionou enorme angústia e desgosto.
Segundo o desembargador Natan Zelinschi de Arruda, relator
do recurso, a simples traição ou relação extraconjugal não ensejaria
indenização por danos morais. O dever de reparar, porém, advém “da
insensatez do réu ao praticar tais atos no ambiente familiar, onde as partes
moravam com os três filhos comuns”.
Além disso o magistrado ressaltou que a mulher foi exposta a situação vexatória, haja vista o conhecimento de vizinhos sobre o ocorrido. “No mais, é óbvio que a situação sub judice altera o estado emocional, atinge a honra subjetiva, ocasiona enorme angústia e profundo desgosto, o que autoriza a fixação de danos morais em razão da excepcionalidade da situação, como bem observou o juiz sentenciante”, escreveu na sentença.
16 de setembro de 2021 às 09:30
15 de setembro de 2021 às 17:53
FOTO: DIVULGAÇÃO
O Facebook sabe o quão prejudicial o Instagram pode ser para
adolescentes, mas se recusa a divulgar isso publicamente. De acordo com
documentos obtidos pelo jornal The Wall Street Journal, a rede social chegou a
conduzir pesquisas sobre o tema.
O relatório mostra como o Instagram e seu mecanismo de
comparação social afetam a saúde mental dos usuários, sobretudo os
adolescentes. “Tornamos os problemas de imagem corporal piores para uma em
cada três meninas adolescentes”, diz um dos slides da apresentação
mostrada internamente no Facebook.
O Facebook sabe o quão prejudicial o Instagram pode ser para adolescentes, mas se recusa a divulgar isso publicamente. De acordo com documentos obtidos pelo jornal The Wall Street Journal, a rede social chegou a conduzir pesquisas sobre o tema.
O relatório mostra como o Instagram e seu mecanismo de
comparação social afetam a saúde mental dos usuários, sobretudo os
adolescentes. “Tornamos os problemas de imagem corporal piores para uma em
cada três meninas adolescentes”, diz um dos slides da apresentação
mostrada internamente no Facebook.
Confira alguns dos destaques da pesquisa que circulou
internamente no Facebook e foi obtida pelo jornal norte-americano:
Um estudo com adolescentes dos Estados Unidos e
do Reino Unido concluiu que mais de 40% dos que relataram se sentir “pouco
atraentes” começaram a notar isso após usar o Instagram;
Pesquisa mostrou, ainda, que o Instagram foi
projetado para uma maior “comparação social” do que os rivais TikTok
e Snapchat, destacando corpos e estilos de vida;
Os adolescentes relataram, no estudo, que se
sentiam “viciados” no Instagram e gostariam de usá-lo menos, mas não
conseguiam;
“Os adolescentes culpam o Instagram pelo
aumento da taxa de ansiedade e depressão”, disse uma pesquisa interna do
Facebook de 2019, que acrescentou que “essa reação foi espontânea e
consistente em todos os grupos”;
13% dos usuários do Reino Unido e 6% dos
usuários dos EUA que têm pensamentos suicidas disseram que esses impulsos estão
relacionados ao Instagram.
Apesar de circular essas informações internamente, o Facebook não as trouxe a público e costuma desviar do tema. Mark Zuckerberg, CEO do Facebook, chegou a ser questionado no Senado dos EUA sobre o impacto do Instagram em adolescentes e deu respostas vagas.
9 de agosto de 2021 às 09:30
8 de agosto de 2021 às 19:06
FOTO: PIXABAY
Com a pandemia de Covid-19, o número de nascimentos no País
em 2020 foi o menor desde 1994, segundo dados do Sistema de Informações de
Nascidos Vivos (Sinasc), do Ministério da Saúde, tabulados pelo Estadão. Foram
2.687.651 recém-nascidos no ano passado, ante 2.849.146 em 2019, queda de
5,66%.
Os nascimentos já estavam em queda ou estabilidade nos
últimos anos, mas em ritmo menos acelerado. Entre 2018 e 2019, por exemplo, a
diminuição no número de novos recém-nascidos havia sido de 3,2%. Já entre 2017
e 2018, o País tinha registrado leve alta de 0,7% nos nascimentos.
O impacto da pandemia no número de recém-nascidos foi maior
até mesmo que o do surto de zika e microcefalia que afetou o País entre 2015 e
2016. Naquele período, em que muitos casais adiaram a gravidez por medo das
sequelas deixadas pelo zika em algumas crianças, a queda de nascimentos foi de
5,3%. A última vez que o Brasil registrou um número menor de nascimentos do que
em 2020 foi há 26 anos, quando, em 1994, 2.571.571 bebês nasceram.
Os dados de 2020 analisados mês a mês demonstram que as
maiores quedas porcentuais ocorreram em novembro e dezembro, justamente nove e
dez meses depois de o coronavírus ser confirmado no Brasil. Nesses meses, a
queda foi de 9%, quase o dobro da média do ano.
A queda de nascimentos é algo que costuma ocorrer em
períodos críticos, mas não significa que ela se manterá constante com o passar
dos anos, explica Joice Melo Vieira, professora do Departamento de Demografia
(DD/IFCH) e pesquisadora do Núcleo de Estudos de População Elza Berquó (NEPO)
da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). “Se nos voltarmos para
casos semelhantes ao longo da história humana, é esperado que o número de
nascimentos decline durante pandemias, mas há certa recuperação depois que esse
período crítico terminar”, observa. “É claro que sempre existem os
casos de mulheres que atravessam períodos de crise já nos anos finais de seu
período reprodutivo e podem ter vivenciado dois abalos grandes – o zika e agora
a covid-19 – e que terão menores chances de recuperação da fecundidade
desejada.”
Segundo Joice, a retomada dos planos para ter filhos, quando
a pandemia passar, vai depender de políticas que vão além do controle da
circulação do vírus. “As pessoas, especialmente as mulheres, vão querer
ter filhos se e quando se sentirem confortáveis para tê-los, se encontrarem
condições propícias para isso. Políticas de redução de desigualdades e que
proporcionem maior estabilidade financeira às famílias, políticas que promovam
equidade de gênero no âmbito público e privado, políticas que favoreçam melhor
gestão do tempo dedicado à vida laboral e pessoal, tudo isso favorece a
recuperação da fecundidade”, destaca.
Para Raquel Zanatta Coutinho, professora adjunta no
Departamento de Demografia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG),
ainda não é possível saber se as pessoas vão desistir do plano de ter filhos ou
se isso terá um efeito inverso. “Pode ser que uma pandemia desse porte
mude para sempre o desejo por crianças. Diante das inseguranças do mundo, pode
ser que quem já estivesse tentado a não ter filhos decida de uma vez que a
maternidade não é um bom caminho”, diz Raquel. “Por outro lado, a
pandemia pode aumentar a fecundidade na medida em que as mulheres perdem o pouco
acesso que tem aos métodos de controle. Talvez tenha um baby
boom para alguns grupos.”
A emergência do zika vírus, de acordo com a professora da
UFMG, teve seu impacto e afetou principalmente as mulheres em situação de
vulnerabilidade. “Em nível nacional, o efeito foi pequeno, mas importante,
cerca de 5% menor do que no ano anterior. Para alguns Estados, como Pernambuco,
onde os casos de microcefalia se concentraram, a redução foi de 23% em 2016.
Isso mostra que o medo da microcefalia e sua proximidade geográfica foram
cruciais para despertar respostas reprodutivas. Mas o que mais chama atenção na
zika é o fato de que mulheres mais jovens, com menos de 25 anos, apresentaram
maior probabilidade de postergar, enquanto as mais velhas mantiveram os planos,
muito por medo de não terem tempo biológico para engravidar”, explica
Raquel. “Além disso, as mais escolarizadas e as mais estáveis
financeiramente conseguiam manter seus planos. Não tenho a menor dúvida de que
as piores consequências da covid-19 serão sentidas pelas mulheres,
especialmente as de baixa escolaridade e menor renda.”
A pandemia teve diferentes efeitos sobre o número de
nascimentos ao redor do mundo. Uma análise feita pela The Economist em outubro
observou uma tendência de queda nos nascimentos nos países de renda mais
elevada, como Cingapura, enquanto o número estava em alta em regiões de renda
mais reduzida, como Uganda.
Congelamento de óvulos. No ano passado, em relação a 2019,
chegou a ocorrer um movimento de queda de congelamento de óvulos, porque muitas
clínicas interromperam atendimentos ou focaram em pacientes que tinham mais
urgência em preservar a fertilidade, caso das mulheres com câncer.
Depois, ocorreu a retomada. “Toda vez que restringe,
cria-se uma demanda reprimida, a procura para as clínicas aumentou
bastante”, diz Emerson Cordts, médico ginecologista e membro da Sociedade
Brasileira de Rerodução Assistida (SBRA).
Em clínicas de fertilização, o movimento de mulheres buscando o congelamento de óvulos cresceu até 25%, segundo especialistas. O principal perfil é o de mulheres que não estão em um relacionamento estável. “A pandemia intensificou esse processo por causa da insegurança quanto ao futuro reprodutivo”, diz Daniel Suslik Zylbersztejn, urologista e coordenador médico do Fleury Fertilidade.
As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
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