
A morte de Nemesio Rubén Seguera Cervantes, conhecido como “El Mencho”, líder do Cartel Jalisco Nueva Generación (CJNG), considerado o mais violento do México, provocou aquela que já considerada uma das reações mais generalizadas por parte de grupos criminosos na História recente do país. O governo mexicano afirmou nesta segunda-feira que 27 agentes das forças de segurança morreram, enquanto 30 supostos integrantes de organizações criminosas teriam sido mortos em meio a confrontos que se seguiram à operação contra o chefe do CJNG.
Estradas foram bloqueadas, veículos, prédios públicos e estabelecimentos comerciais foram incendiados e uma série de eventos pré-agendados, como partidas de futebol e apresentações culturais foram suspensas, enquanto atos de violência foram registrados em pelo menos 20 estados.
A presidente do México, Claudia Sheinbaum, afirmou que a situação foi estabilizada nesta segunda-feira, após a mobilização do governo de cerca de 10 mil militares no oeste do país. Sheinbaum também confirmou que a operação que resultou na morte de “El Mencho” teve apoio da inteligência dos EUA, mas que foi conduzida por Forças Especiais do Exército mexicano — sem a presença de militares de Washington no país.
Os cartéis mexicanos costumam reagir violentamente após a captura de seus principais chefes, em um tipo de gesto para demonstrar força e dissuadir as autoridades de confrontá-los novamente. Mas a proporção da resposta após a morte de El Mencho no domingo foi grande mesmo para os padrões do país. Somente em Jalisco, autoridades informaram que 20 agências bancárias foram incendiadas ou danificadas, enquanto grupos atearam fogo em carros para bloquear estradas. Voos foram desviados e pelo menos um porto suspendeu suas operações. Em alguns estados, as aulas desta segunda-feira foram canceladas, enquanto companhias aéreas e de ônibus suspenderam algumas rotas ao longo da semana.
O ministro de Segurança mexicano, Omar García Harfuch, afirmou nesta segunda-feira que ao menos 25 membros da Guarda Nacional mexicana, um policial penal e um funcionário da Procuradoria-Geral do Estado morreram em ataques retaliatórios promovidos pela organização criminosa.
O ministro da Defesa do México, Ricardo Trevilla, afirmou que em meio aos confrontos, o alto comando do grupo criminoso ofereceu um prêmio de 20 mil pesos (cerca de R$ 6 mil no câmbio atual) por militar morto. A ordem para matar oficiais teria partido de Hugo H., conhecido como “El Tuli”, um “tenente” do cartel apontado pelas forças de segurança como operador logístico e financeiro de El Mencho.
— De lá [de El Grullo, Jalisco, o município onde a operação ocorreu], ele coordenava bloqueios de estradas, incêndios em veículos, ataques a instalações militares, instalações da Guarda Nacional, prédios governamentais e empresas civis — disse o ministro, acrescentando que ele morreu após se envolver em uma troca de tiros enquanto tentava fugir em um veículo.
Ainda de acordo Trevilla, mais 2,5 mil soldados foram deslocados para o oeste do país como medida de dissuasão após a morte de “El Mencho”.
— Havia aproximadamente 7 mil soldados estacionados em Jalisco, então vamos reforçar — disse Trevilla em uma coletiva de imprensa: — A intenção é, acima de tudo, ter um efeito dissuasor.
O governo mexicano informou que todos os 252 bloqueios registrados em rodovias do país durante a represália foram solucionados, e que as instituições retomaram a normalidade após o dia de intensos confrontos. Ao todo, 70 pessoas foram presas em pelo menos sete estados, segundo os dados oficiais.
Pânico e sensação de insegurança
Grande parte da violência foi registrada em Guadalajara, capital de Jalisco, um centro urbano com 1,4 milhão de habitantes que será sede da Copa do Mundo deste ano. O pânico tomou conta do Aeroporto Internacional de Guadalajara no domingo, com vídeos publicados nas redes sociais mostrando funcionários e passageiros fugindo do prédio. A administração do aeroporto e o governo federal mexicano afirmaram que a zona estava segura, apesar do tumulto, e operava normalmente.
Paulina, uma moradora de Guadalajara de 32 anos, que pediu para ser identificada apenas pelo primeiro nome por temer por sua segurança, disse que estava viajando com o marido e o filho de 3 anos quando ficaram presos em um dos bloqueios do cartel. Enquanto tentavam escapar e voltar para casa, viram uma família ferida à beira da estrada.
— Estou implorando para que as pessoas não saiam de casa — disse Paulina: — Depois do que vi, percebi que essas pessoas não têm consideração por ninguém. Não desejaria a ninguém o que presenciei.
Jorge Martínez, um aposentado de 70 anos, aventurou-se a fazer compras em uma farmácia, mas foi atendido pela janela.
— A situação está meio crítica, apenas alguns comércios abriram e estou aproveitando. Meus familiares hoje não saíram de casa — disse à AFP.
Megaoperação
A megaoperação contra El Mencho — um ex-policial que fundou uma das principais organizações de narcotráfico do México — levantou questionamentos sobre a participação americana, após meses de pressão do presidente Donald Trump sobre Sheinbaum, para uma ação mais decisiva contra grupos criminosos que tem no envio de entorpecentes para os EUA boa parte de sua lucratividade.
Em coletiva de imprensa nesta segunda, a líder mexicana foi decisiva em afirmar que a colaboração americana se limitou a informações de inteligência, rejeitando que militares americanos tenham participado da operação.
— Não houve participação de forças americanas na operação, o que existe é muita troca de informações — declarou Sheinbaum: — Neste caso, houve informações fornecidas pelo governo dos Estados Unidos, mas toda a operação, desde o seu planejamento, é de responsabilidade das forças federais, neste caso, do Ministério da Defesa Nacional.
As autoridades mexicanas afirmaram que a operação foi executada pelas Forças Especiais do Exército com o auxílio de aeronaves da Força Aérea e da Força de Reação Imediata da Guarda Nacional. A Casa Branca confirmou que a participação do país se limitou ao setor de inteligência. Em uma publicação nas redes sociais nesta segunda, Trump afirmou que “o México deve intensificar seus esforços contra os cartéis e as drogas”.
As autoridades de segurança mexicana afirmaram que El Mencho foi localizado em 20 de fevereiro em Tapalpa, região montanhosa de Jalisco, ao identificarem e seguirem uma “parceira amorosa” do líder criminoso.
Ainda de acordo com as informações divulgadas pela Defesa mexicana, a tropa enviada para executar a prisão de El Mencho foi recebida a tiros pela segurança pessoal do traficante, que estava munida de armamento pesado, respondendo “em legítima defesa”. Quatro integrantes do cartel morreram no local e outros três ficaram feridos, incluindo Oseguera, que morreu a caminho do hospital. Lançadores de foguetes capazes de derrubar aeronaves ou destruir veículos blindados foram apreendidos.
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