
O presidente da Associação dos Oficiais Militares do Rio Grande do Norte (ASSOFME), coronel Antoniel Moreira, classificou como “absolutamente intolerável” a declaração do senador Styvenson Valentim (PSDB) de que coronéis da Polícia Militar “não fazem nada” e ganham “dinheiro fácil”.
Em entrevista à rádio 98 FM, o coronel associou a postura do senador a um comportamento reiterado, relembrou episódios da formação militar e questionou sua evolução na carreira, ao mesmo tempo em que relatou indignação generalizada dentro da corporação e repercussão interna que ultrapassou o campo institucional.
A fala de Styvenson aconteceu em um evento no município de Parelhas no último domingo 29. Durante a inauguração de uma escola, o senador afirmou que coronéis da Polícia Militar “não fazem nada” e ganham “dinheiro fácil”. Ele deu a declaração enquanto comentava sua decisão de deixar a Polícia Militar para ingressar na política. Antes de ser eleito em 2018, Styvenson era tenente da PM e ganhou notoriedade como operador da Lei Seca. Hoje, é capitão da reserva.
“Há 10, 12 anos, quando ele era tenente da Lei Seca, já fazia críticas aos oficiais”, afirmou, acrescentando que a conduta se mantém ao longo do tempo. “Não chega a nos surpreender”, disse, ao classificar o comportamento como recorrente e atribuir possível motivação a busca por visibilidade. “Achávamos até que era uma tentativa de ganhar engajamento.” A crítica se estendeu à forma como o senador se posiciona diante da instituição. “É um cara que se acha mais importante do que todos”, afirmou.
A resposta da Associação dos Oficiais, presidida por Moreira, foi alvo de questionamentos pelo tom. O coronel rejeitou a avaliação de excesso. “A resposta foi dura, tal qual a fala dele desnecessária”, afirmou, sustentando que a entidade tem histórico de posicionamentos firmes e que a reação acompanhou a gravidade da declaração.
Ao justificar a inclusão de episódios pessoais na nota, disse que o objetivo foi estabelecer contraponto. “É para chamar atenção do senador que ele tem que lembrar do passado dele”, afirmou, acrescentando que críticas também podem ser dirigidas a ele.
No detalhamento desses episódios, Moreira afirmou que, durante o curso de formação, Styvenson deixou de cumprir obrigações financeiras assumidas pela turma. “Todos os colegas pagaram, exceto ele”, disse. Também mencionou situação envolvendo evento da formação que teria gerado constrangimento. “A turma afirma com todas as letras que sim”, afirmou, ao se referir à presença de garotas de programa supostamente levadas por Styvenson. “Isso causou um constrangimento absurdo”, disse.
A avaliação sobre a trajetória do senador dentro da Polícia Militar foi ainda mais incisiva. “Foi uma carreira rápida, de 15 anos”, afirmou, ao destacar que ele não completou o tempo usual para progressão. Segundo Moreira, houve registros disciplinares e episódios de conflito. “Foi punido disciplinarmente várias vezes”, afirmou. A conclusão apresentada é categórica. “Pertencia ao baixo nível do oficialato”, disse, ao acrescentar que dificilmente alcançaria o posto de coronel. “Era a percepção que sempre tivemos dele.”
Ao abordar a projeção pública de Styvenson, especialmente no período da Lei Seca, o coronel relativizou o protagonismo atribuído ao senador. “A Lei Seca é um programa nacional, não é local”, afirmou, acrescentando que o rigor é padrão em todo o País. “Em qualquer estado não tem carteirada.”
Segundo ele, a personalização do programa distorce a realidade. “Ele trouxe como se fosse o responsável”, disse. Para reforçar, citou exemplos recentes. “Há poucos meses um coronel foi autuado, dois majores também”, afirmou, indicando que o padrão de fiscalização permanece.
Internamente, o impacto da fala foi imediato. “Há uma indignação de todos os coronéis”, afirmou. Segundo ele, a repercussão atingiu ativos, veteranos e familiares. “Há viúvas de coronéis extremamente magoadas”, disse. O episódio passou a circular no cotidiano da corporação. “Virou meme na Polícia Militar”, relatou, mencionando abordagens informais entre colegas.
Moreira também situou o episódio no campo político. Para ele, a declaração se insere em tentativa de afirmação pública. “Ele se perdeu ali no meio da fala”, afirmou, ao sugerir que o senador buscou autopromoção ao dizer que poderia “ganhar dinheiro sem fazer nada” na carreira. Em paralelo, fez comparação com outros parlamentares. “A densidade é muito diferenciada”, disse, ao tratar do nível do debate.
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