
Responsáveis pela maior parte da alfabetização nas séries iniciais da rede pública, os municípios do Rio Grande do Norte concentram também o principal peso no desempenho que colocou o estado na última posição do ranking nacional do Indicador Criança Alfabetizada (ICA), divulgado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), no último 23 de março. De acordo com o levantamento, em 2025, 48% das crianças do 2º ano do ensino fundamental da rede pública potiguar estavam alfabetizadas na idade considerada adequada, percentual abaixo da meta estabelecida para o período, de 51%.
Os dados educacionais mostram que a alfabetização nessa etapa ocorre majoritariamente nas redes municipais de ensino. De acordo com o Censo Escolar de 2025, divulgado pela plataforma QEdu, o Rio Grande do Norte contabilizou, no ano passado, 32.440 estudantes concluindo o 2º ano do ensino fundamental. Desse total, 27.941 estavam matriculados em escolas municipais, o que representa cerca de 86% das matrículas, enquanto 4.499 pertenciam à rede estadual, o equivalente a aproximadamente 13,9%.
Na prática, isso significa que a maior parte das crianças que chegam ao final do ciclo de alfabetização está vinculada às redes administradas pelos municípios, responsáveis pela oferta predominante das séries iniciais da educação básica.
Ainda assim, quando os resultados são divulgados nacionalmente, os indicadores são apresentados por unidade da federação, o que acaba direcionando a avaliação pública para o desempenho geral do estado, embora a execução direta da alfabetização esteja concentrada nas redes municipais. Especialistas e gestores educacionais apontam que, nesse contexto, a responsabilização pelo resultado final recai de forma equivocada principalmente sobre o governo estadual.
Evolução em 2025
Apesar da posição no ranking nacional, os dados também apontam evolução em relação ao ano anterior. Em 2024, o índice de crianças alfabetizadas na idade adequada no Rio Grande do Norte era de 39%. Em 2025, passou para 48%, crescimento de 23,1% em um ano. O avanço, no entanto, não foi suficiente para acompanhar o ritmo de outros estados brasileiros, que também ampliaram seus resultados e acabaram superando o desempenho potiguar.
O levantamento integra as políticas nacionais de monitoramento da alfabetização na idade certa e considera o percentual de crianças capazes de ler e escrever adequadamente ao final do 2º ano do ensino fundamental. Especialistas apontam que o indicador é um dos principais parâmetros para medir a qualidade da educação básica nos primeiros anos da escolaridade.
Ações para melhorar desempenho
Por meio de nota, a Secretaria de Estado da Educação, do Esporte e do Lazer (SEEC) reconheceu a posição no ranking nacional, mas destacou que o crescimento registrado demonstra uma trajetória de avanço no processo de alfabetização das crianças potiguares.
Segundo a pasta, “a rede pública do Rio Grande do Norte, formada pelas redes municipais e estadual, alcançou índice de 48% de crianças alfabetizadas na idade adequada”. A secretaria ressaltou ainda que o estado avançou de 39% em 2024 para 48% em 2025, crescimento de 23,1%, colocando o RN como o oitavo estado com maior taxa de evolução no país no período.
De acordo com o governo estadual, esse resultado é fruto de ações articuladas entre Estado, municípios e Governo Federal. Entre elas está a adesão de 100% dos municípios potiguares ao Compromisso Nacional Criança Alfabetizada (CNCA) e a implementação da Política Territorial de Alfabetização de Crianças do Rio Grande do Norte, conhecida como Pró-Alfa RN.
Desde 2023, a gestão estadual afirma ter fortalecido iniciativas voltadas à alfabetização, como a distribuição de materiais complementares de apoio pedagógico, que já alcançam mais de 190 mil estudantes. Além disso, foram implantados cantinhos de leitura nas escolas, ampliando os espaços destinados ao incentivo à leitura, além da concessão de bolsas para fortalecer a rede de articulação e formação nos municípios.
Outro eixo destacado pela secretaria é o fortalecimento do Sistema de Avaliação da Aprendizagem do Rio Grande do Norte (SIMAIS), utilizado para monitorar continuamente o desempenho dos estudantes e alinhar as avaliações às competências exigidas nacionalmente.
Por fim, “a SEEC reafirma que o desafio apontado pelos números exige trabalho, compromisso e continuidade. Ao mesmo tempo, o crescimento registrado demonstra que o caminho adotado está produzindo resultados concretos. Seguiremos trabalhando com professores, gestores escolares, universidades parceiras, redes municipais e o Governo Federal para assegurar o direito de todas as crianças potiguares à alfabetização na idade certa”, informou a pasta.
Desafios estruturais
A União dos Dirigentes Municipais de Educação do Rio Grande do Norte (Undime/RN) também avaliou os resultados com cautela. Em nota, a entidade reconheceu que o estado ainda não atingiu a meta e ocupa posição inferior no ranking nacional, mas destacou o avanço registrado no último ano.
Assim como o Estado, a Undime ressaltou que o crescimento de 23,1% entre 2024 e 2025 coloca o Rio Grande do Norte como o oitavo estado que mais avançou na alfabetização infantil no país. A entidade atribui o cenário atual a desafios históricos que ainda impactam a educação potiguar.
Entre eles estão a ausência, ao longo dos anos, de políticas públicas contínuas voltadas à alfabetização, as desigualdades socioeconômicas e a necessidade permanente de formação docente. Para a entidade, o avanço dos indicadores depende da ampliação de investimentos na qualificação de professores, no acompanhamento pedagógico e na melhoria das condições de aprendizagem nas escolas.
A Undime também reforça que os resultados positivos registrados recentemente são consequência do regime de colaboração entre municípios, Estado e União, modelo considerado fundamental para fortalecer as políticas educacionais e melhorar os indicadores de alfabetização.
Crescimento insuficiente
Para a doutora em Educação Claudia Santa Rosa, ouvida pelo Diário do RN, os dados revelam uma realidade preocupante, embora não surpreendente para quem acompanha o cenário educacional do estado.
“O Rio Grande do Norte, em todas as etapas da escolaridade, enfrenta desafios. A cada estatística divulgada, a educação do nosso estado acaba sendo posicionada de forma insatisfatória”, afirma a especialista.
Segundo ela, mesmo quando há crescimento nos indicadores, o avanço ainda ocorre de forma lenta. “Os dados mostram que, mesmo quando conseguimos crescer, é um crescimento tímido.
Em 2024 havia dois estados abaixo do Rio Grande do Norte, agora todos subiram e o estado ficou isolado em último lugar. Ou seja, é um crescimento insuficiente para dar conta dos desafios que temos”, analisa.
A especialista destaca que o indicador significa que menos da metade das crianças potiguares consegue ser alfabetizada na idade adequada. “Esse dado revela que, a cada dez crianças, nós conseguimos alfabetizar menos de cinco. Se arredondarmos, podemos dizer que alfabetizamos metade. É preciso coragem para olhar para esses números e agir de forma rápida”, diz.
Para ela, o caminho para melhorar o desempenho passa principalmente pelo investimento em formação de professores alfabetizadores e pela estabilidade desses profissionais nas escolas.
“Não é todo professor que sabe alfabetizar. É necessário investir na formação específica desses profissionais e garantir que eles permaneçam nas escolas, evitando a rotatividade que prejudica o processo pedagógico”, afirma.
Claudia Santa Rosa também defende ações que comecem ainda na educação infantil, com acompanhamento contínuo do desenvolvimento das crianças e oferta de materiais didáticos adequados ao processo de alfabetização.
“É preciso acompanhar cada criança para que ela não carregue déficits de aprendizagem de um ano para outro. Isso começa na educação infantil e precisa ser levado muito a sério. Outros estados já aprenderam a enfrentar esses desafios. O Rio Grande do Norte ainda está lidando com eles, e isso explica por que o avanço ocorre de forma mais lento”, conclui.
Diário do RN
