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PF flagra sócios da Dismed discutindo pagamento com auxiliar de Allyson Bezerra

FOTO\: DIVULGAÇÃO

Documentos da investigação da Operação Mederi, da Polícia Federal, revelam a atuação de mais uma personagem dentro da estrutura investigada por suspeita de fraude na contratação de medicamentos pela Prefeitura de Mossoró na gestão Allyson Bezerra (UB). A servidora Poliana Rezende Dantas, que ocupou cargos na área financeira da Secretaria Municipal de Saúde entre 2024 e 2025, aparece citada em pelo menos nove interceptações ambientais realizadas entre maio e junho de 2025 na sede da distribuidora de medicamentos DISMED.

As informações fazem parte de documentos aos quais o Blog do Dina, do jornalista Dinarte Assunção, teve acesso com exclusividade. Segundo decisão do desembargador federal Rogério Fialho Moreira, do Tribunal Regional Federal da 5ª Região (TRF-5), Poliana ocupa a quinta posição em uma estrutura formada por nove pessoas descritas no processo. Na decisão judicial, ela é apontada como “contato de confiança dentro da Secretaria Municipal de Saúde”, cuja participação seria considerada indispensável para a execução do esquema investigado.

Poliana foi nomeada pelo prefeito Allyson Bezerra por meio de portaria publicada em 31 de janeiro de 2025. O próprio documento judicial identifica o prefeito como o topo da estrutura investigada. Antes mesmo da nomeação, porém, já havia registros de contato entre a servidora e integrantes do grupo investigado.

Os autos obtidos pelo Blog do Dina apontam que 23 dias antes da nomeação, a servidora manteve troca de mensagens com Oseas Monthalggan Fernandes da Costa, sócio da DISMED e apontado como um dos principais operadores do esquema. Conforme os documentos, “verificou-se trocas de mensagens entre Poliana e o investigado Oseas Montalgghan, que foram realizadas nos dias 07, 08, 09, 14, 15, 16 e 17 de janeiro de 2025”.

O material indica que foram sete dias de conversas entre os dois. O conteúdo dessas mensagens não foi transcrito nos documentos disponibilizados à reportagem. Ainda assim, chama atenção o fato de que menos de um mês depois do último contato registrado, Poliana já estava oficialmente nomeada diretora financeira da Secretaria Municipal de Saúde.

A primeira menção direta ao nome da diretora nas interceptações ocorre em 9 de maio de 2025. Na conversa registrada pela investigação, Sidney, representante comercial que atuava como intermediário da DISMED, informa a Oseas que Mossoró havia recebido um ofício licitatório e que o documento tinha sido entregue à diretora financeira.

Na conversa interceptada, ele diz: “MOSSORÓ recebeu o ofício, viu, hoje! POLIANA, pra POLIANA, dá CARONA. Ela disse que segunda-feira respondia; a resposta de Oseas é direta: “Show de bola!”.

De acordo com os investigadores, a expressão “carona” refere-se à adesão a atas de registro de preços de outros entes públicos. Esse mecanismo permite que um município contrate produtos ou serviços a partir de licitações realizadas por outros órgãos, sem a necessidade de abrir um novo processo licitatório próprio. Segundo a investigação, o ofício mencionado seria o passo formal para ativar esse mecanismo, passando pela mesa da diretora financeira.

Quatro dias depois, em 13 de maio de 2025, uma nova interceptação registra Oseas planejando uma conversa reservada com Poliana. Pelo conteúdo da conversa, os investigadores inferem que a escolha do horário do almoço e a preocupação de encontrá-la sozinha indicariam a tentativa de estabelecer contato fora do ambiente institucional formal. A expressão “ver até onde vai dar pra ir” aparece no processo analisada dentro do contexto de tentativa de ampliar o volume das ordens de compra de Mossoró.

De acordo com outra interpretação dos investigadores, de 15 de maio de 2025, a diretora teria fornecido um modelo oficial de documento em formato Word, retirado do sistema da prefeitura, para orientar a distribuidora na apresentação da documentação exigida. Para a Polícia Federal, esse episódio reforçaria o papel de facilitadora atribuído a Poliana dentro da estrutura investigada.

Uma das escutas consideradas mais diretas envolve uma nota fiscal de R$ 231 mil. Em 2 de junho de 2025, Moabe Zacarias Soares, outro sócio da DISMED, liga para o telefone de Poliana. O pedido principal era para que ela localizasse no sistema da prefeitura a nota paga em 28 de abril de 2025 e desse baixa na contabilidade.

Minutos depois, em outra escuta do mesmo dia, Oseas comenta sobre a mesma nota: “Essa nota aqui só tem comissão de 15 mil, de Mossoró”. Para os investigadores, o valor de R$ 15 mil corresponderia à comissão ou propina vinculada ao pagamento.

Em 29 de maio de 2025, as interceptações registram sinais de tensão na relação entre o grupo investigado e a diretora. Em uma das conversas, Oseas tenta ligar para Poliana sem sucesso e comenta que ela poderia estar desconfiada. Minutos depois, outra conversa trata da necessidade de autorização dela para o andamento de determinada licitação comentada por eles.

Segundo informações administrativas da prefeitura, Poliana recebia salário base de R$ 3.020,00, acrescido de R$ 4.530 de representação pela função de gestora de contratos, totalizando R$ 7.550 mil mensais.

Dados do Portal da Transparência da Prefeitura de Mossoró indicam que a DISMED Distribuidora de Medicamentos recebeu R$ 4.978.999,75 do município entre 1º de julho de 2024 e 1º de julho de 2025, período que coincide com a atuação de Poliana em cargos ligados à área financeira da Secretaria de Saúde.

Nas escutas interceptadas pela investigação, os próprios sócios da empresa descrevem uma divisão percentual dos contratos: 15% para o prefeito, 10% para a assessora, 25% de lucro da empresa e 50% em medicamentos fornecidos.

Aplicando essa fórmula ao volume de contratos registrados no período, a estimativa de propina gerada pelos contratos de Mossoró poderia chegar a R$ 1.244.749,94, sendo R$ 746.849,96 atribuídos ao prefeito Allyson Bezerra. Os próprios documentos da investigação ressaltam, no entanto, que os valores são projeções baseadas nas conversas interceptadas e não foram confirmados individualmente pelos investigadores.

A defesa da servidora foi procurada pelo Blog do Dina para comentar as citações nas investigações, mas informou que, como o processo tramita sob sigilo, não poderia se manifestar sobre o conteúdo.

Diário do RN

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