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Deflação, dólar alto e crise política: grandes desafios do Banco Central

FOTO: DIVULGAÇÃO

O cotidiano de Roberto Campos Neto foi virado do avesso nos últimos meses. Desde o desembarque do coronavírus no país, as perspectivas e atuação do presidente do Banco Central ganharam novas diretrizes. Se antes as apostas sobre as reuniões do Comitê de Política Econômica, o Copom, já eram acirradas, as especulações quanto ao comportamento da instituição em sua sina dos cortes das taxas básicas de juros, a Selic, ganharam novos elementos. Nesta terça-feira, 28, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou os dados atualizados de inflação no país, por meio do IPCA-15, que mede o comportamento dos preços nos últimos 15 dias e serve como prévia dos números oficiais. O país registrou a primeira deflação de 0,01%, quando, em média, os preços recuam, desde 1994.

Por mais que o aumento de preços não seja bom, o cenário traçado pelo índice não traz novas alvissareiras. O indicador foi puxado para baixo pela retração do preço dos combustíveis, com a gasolina recuando 5,41% e o etanol, 9,08%, entre as últimas duas semanas de março e as duas primeiras de abril, mas por um motivo sórdido: as pessoas, em sua maioria, não estão saindo de casa, os aviões estão estacionados nos hangares e o consumo de combustível sofreu um baque desolador para as contas do país. “A economia do país é muito dependente do preço das commodities. Com a queda do preço do petróleo, aumenta o risco de um problema fiscal para o país”, diz André Perfeito, economista-chefe da Necton.

A deflação do IPCA-15 só não foi maior porque o preço dos alimentos subiu 2,46%, com pressão na alimentação dentro de casa. Os demais setores, por sua vez, tiveram recuo expressivo, mesmo com as pessoas em casa. Como o cenário é de incerteza para todo mundo, empregados e empregadores, e muitos estados e municípios mantêm decretos de proibição de comércios e serviços não essenciais, a população brasileira está evitando (ou impedida de) comprar aquilo que não seja estritamente necessário. “A gente percebe o mal estar do momento atual. Os preços de alimentação em domicilio subiram muito e os de artigos domésticos caíram fortemente. Ninguém está comprando televisão, por exemplo. O índice mostra esse caráter interessante, o cenário do que está acontecendo agora”, completa Perfeito.

“O que me preocupou foi que alimentação veio muito alto. Um número extremamente elevado, disseminado entre muitos itens diferentes”, diz Mauro Rochlin, professor de economia da Fundação Getulio Vargas (FGV). Ele exorta sua preocupação quanto ao comportamento dos preços de artigos fundamentais, ainda mais neste momento. “Causa alguma preocupação, porque são aqueles itens que têm um peso relevante nas contas das famílias, ainda mais agora, e estão com a demanda muito forte”, diz ele. De fato, enquanto os artigos, digamos, menos necessários apresentam queda nos preços, alimentos dos mais básicos sofreram pressão significativa, num cenário em que muitos empregados foram demitidos ou tiveram seus vencimentos reduzidos, empresários não vendem e rentistas têm queda nas entradas. Com as medidas de distanciamento social, muitas pessoas estão trabalhando de casa ou sem trabalhar, o que pressiona os preços de alimentação dentro de casa, já que esse consumo é maior. O preço da cebola avançou gritantes 35,79%, enquanto o do tomate acelerou 17,01% em comparação ao mês anterior. A batata-inglesa passou de uma queda de 1,02% em março para alta de 21,24% em abril. A cenoura registrou variação positiva pelo quarto mês consecutivo, de 31,67%, acumulando no ano alta de 102,71%.

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