
O Carnaval de Guamaré, cada vez mais marcado pelo chamado “mela-mela”, entrou definitivamente no radar de uma crise que vai muito além da folia. O uso indiscriminado de melaço de cana nas ruas da cidade, somado à histórica ausência de esgotamento sanitário eficiente, vem acendendo alertas entre técnicos, produtores, pescadores e órgãos de controle sobre os riscos ambientais, econômicos e de saúde pública que recaem sobre o município.
Laudos técnicos e estudos ambientais apontam que o melaço, ao ser arrastado pelas chuvas e pela lavagem urbana, escoa diretamente para os estuários dos rios Aratuá e Miassaba — ambientes frágeis, essenciais para a pesca, a mariscagem e, sobretudo, para a carcinicultura, uma das principais atividades econômicas de Guamaré.
Rico em matéria orgânica, o melaço consome rapidamente o oxigênio dissolvido na água durante seu processo de decomposição, criando cenários de hipóxia e anóxia que levam à morte de peixes, camarões e outros organismos aquáticos.
O problema se agrava porque esses rios já recebem, de forma contínua, esgoto doméstico sem tratamento adequado. Análises realizadas em 2025 identificaram níveis de coliformes termotolerantes mais de 100% acima do limite permitido pela legislação ambiental, além de sinais avançados de eutrofização. Na prática, o melaço funciona como um “acelerador” de um sistema já saturado, elevando o risco de colapso ambiental em períodos críticos como o Carnaval.
Os impactos extrapolam o meio ambiente. A carcinicultura, responsável por centenas de empregos diretos e indiretos no município, depende diretamente da qualidade da água dos estuários. A queda brusca de oxigênio e a proliferação de bactérias patogênicas podem dizimar viveiros inteiros em poucos dias, gerando prejuízos milionários, perda de mercados e risco real de fechamento de empresas. A pesca artesanal e a mariscagem seguem o mesmo caminho, com redução de estoques, produtos impróprios para consumo e queda de renda de famílias tradicionais.
Do ponto de vista da saúde pública, o cenário é igualmente preocupante. Ambientes com alta carga orgânica e esgoto favorecem a proliferação de bactérias como as do gênero Vibrio, associadas a doenças gastrointestinais graves, além de hepatite A e infecções de pele. Populações ribeirinhas e consumidores de pescados e mariscos ficam diretamente expostos a esses riscos.
Apesar de sucessivas tentativas de diálogo desde 2024, empreendedores da carcinicultura e entidades representativas relatam ausência de respostas efetivas do poder público municipal. Reuniões, alertas técnicos e propostas de alternativas sustentáveis não resultaram em mudanças práticas.
Diante da confirmação de que o uso do melaço seria mantido — e até ampliado — no Carnaval de 2026, o setor decidiu acionar o Ministério Público do Rio Grande do Norte. A representação pede medidas emergenciais para conter o lançamento de esgoto, restringir o uso do melaço em áreas de drenagem e evitar que a tradição carnavalesca continue colocando em risco a economia local, o meio ambiente e a saúde da população.
O debate expõe um dilema que, na prática, é falso: tradição versus sustentabilidade. Especialistas lembram que há alternativas viáveis, como o uso de produtos biodegradáveis, delimitação de áreas específicas e barreiras de contenção, capazes de preservar a festa sem comprometer os rios e o futuro de Guamaré. Manter o modelo atual, à revelia de dados técnicos e alertas científicos, significa transformar uma celebração popular em um passivo ambiental, econômico e social de longo prazo.
Guamaré, mais do que decidir como brincar o Carnaval, está sendo chamada a decidir que tipo de cidade pretende ser nos próximos anos. Entre o improviso da tradição malcuidada e a responsabilidade com seu patrimônio natural e produtivo, o custo da escolha já começa a ficar alto demais para ser ignorado.
