
Há prédios que não são apenas estruturas, são arquivos vivos. Localizado no coração da Cidade Alta, bairro que compõe o centro histórico de Natal, o antigo edifício do Instituto Federal do Rio Grande do Norte (IFRN) atravessou décadas como testemunha silenciosa de transformações urbanas, encontros e aprendizados.
Agora, o espaço passa por um processo de restauração para abrigar o Centro de Tecnologia e Cultura (CTC) Luzia Vieira de França. A iniciativa integra o projeto de reabertura do prédio, que pretende transformá-lo em um polo de formação, inovação e expressão cultural.
Entre as ações em andamento, destaca-se o trabalho de recuperação dos móveis antigos e das estruturas em madeira, conduzido pelo artista Roberto Brennan, que há 30 anos atua na área. O processo envolve técnicas de restauração que priorizam a preservação das características originais das peças, respeitando as marcas do tempo e a história do edifício.
“Esse é um trabalho que demanda muito tempo. Existe muito estudo por trás de cada peça de madeira. São móveis, portas e janelas que datam de mais de 100 anos. Então eu estudo muito, pesquiso muito para fazer esse trabalho”, explica.
Para o artista, cada gesto de restauração ultrapassa o ofício manual – é também um ato de resistência à pressa e ao esquecimento. “A cultura está justamente nisso, em a gente preservar para mostrar aos jovens a preservação da cultura antiga”, diz. Enquanto lixa portas centenárias ou reconstrói molduras corroídas pelo tempo, ele entende que também restaura uma forma de olhar o passado.
“Aqui foi o primeiro centro técnico. Que hoje é o IFRN, enormes, fantásticos, mas tudo começou aqui”, recorda. A consciência histórica se mistura ao orgulho de ver o espaço renascer de maneira fiel à sua origem. “Preservar um prédio histórico como esse é muito importante para a cultura. Os jovens e as crianças, quando entrarem aqui, vão ficar todos impressionados, porque isso aqui é um museu. No Brasil, temos tão poucos museus. Então isso aqui é preservação da história”.
O trabalho de Roberto dialoga com a proposta mais ampla do Centro de Tecnologia e Cultura Luzia Vieira de França: unir tradição e experimentação. Ao mesmo tempo em que o prédio recupera sua forma original, também se prepara para abrigar laboratórios, oficinas e exposições voltadas à inovação e à produção artística contemporânea. É o passado servindo de alicerce para novos encontros.
Quando as portas voltarem a se abrir para o público, o antigo prédio do IFRN será mais do que um espaço restaurado: será um testemunho de continuidade. O que se ergue na Cidade Alta é também uma declaração de amor à memória e à cultura. Não é apenas um edifício recuperado, mas uma forma de permanência – uma declaração de que a memória, quando cuidada, não se encerra. Ela se projeta para novos sonhos e futuros.
Agora RN