
A disparada no preço do querosene de aviação (QAV) no início de abril intensificou a pressão sobre o setor aéreo no Brasil e já produz reflexos diretos nas operações no Rio Grande do Norte, onde empresas relatam aumento abrupto nos custos e risco de retração da oferta de voos.
Dados do setor indicam que o combustível, responsável por cerca de 30% dos custos das companhias aéreas, teve reajuste de até 55% em um único movimento recente, após uma sequência de variações mensais mais moderadas. Em janeiro, houve queda de 9,4%; em fevereiro, recuo de 0,79%; e, em março, alta de 9,4%. A mudança de patamar em abril rompeu o equilíbrio observado ao longo do trimestre.
“Quando você aumenta 55% do dia para a noite, isso vai impactar de uma forma muito consistente no setor aéreo”, afirmou o empresário Felipe Maia, que atua na distribuição e transporte de combustíveis no Nordeste.
No Rio Grande do Norte, o impacto já é sentido na logística de abastecimento e distribuição. Segundo Maia, operações foram surpreendidas com reajustes superiores a 40% em cargas adquiridas fora do estado, como na base de Fortaleza, evidenciando a volatilidade do mercado regional.
O estado possui produção local de QAV suficiente para atender parte da demanda do aeroporto de Aeroporto Internacional de São Gonçalo do Amarante, mas outros centros do Nordeste dependem de importações por cabotagem, o que amplia a exposição ao cenário internacional.
O mercado nacional de querosene é altamente concentrado, com cerca de 95% do abastecimento nas mãos de três grandes distribuidoras: Shell, Vibra Energia e Air BP.
Apesar de parte da produção ser nacional, o preço do QAV no Brasil segue atrelado às cotações internacionais do petróleo e ao câmbio. A recente escalada está associada à valorização do barril tipo Brent e às tensões geopolíticas no Oriente Médio, que impactam a oferta global de combustíveis.
“O querosene não é um valor isolado, está conectado ao mercado global de petróleo e ao câmbio”, afirmou Maia.
Essa dinâmica limita a capacidade de intervenção direta do governo sobre os preços, diferentemente do que ocorre em políticas domésticas de combustíveis como o diesel.
Diante do avanço dos custos, o governo federal discute um conjunto de medidas para mitigar os impactos sobre a aviação civil. Entre as alternativas em avaliação estão: Criação de linha de crédito emergencial com recursos do Fundo Nacional de Aviação Civil (FNAC); redução do IOF em operações financeiras do setor; revisão de tributos como PIS/Cofins; possível ajuste no imposto sobre leasing de aeronaves.
Entidades representativas do setor aéreo têm defendido medidas estruturais para reduzir a carga tributária e ampliar a previsibilidade de custos, argumentando que o cenário atual compromete a sustentabilidade das operações, sobretudo em rotas regionais.
A tendência, segundo agentes do mercado, é de repasse parcial do aumento aos consumidores. Estimativas apontam para reajustes de 10% a 20% nas tarifas aéreas nos próximos meses. “Fala-se em torno de 20% de reajuste nas passagens aéreas”, disse Maia.
Além da alta nos preços, o setor avalia a possibilidade de redução de frequências e rotas como forma de ajuste de oferta, o que pode afetar a conectividade de estados como o Rio Grande do Norte. “Vai haver disponibilidade de assento? Vai haver corte de malha? Isso é um desdobramento”, afirmou.
O impacto do QAV também se estende à cadeia logística, incluindo transporte rodoviário de combustíveis, pressionado simultaneamente pela alta do diesel.
“Eu sofro dos dois lados. No diesel das carretas e agora no querosene”, disse Maia.
Com o aumento de custos e a possível retração da demanda, o setor aéreo entra em um período de incerteza, condicionado à evolução do cenário internacional e à capacidade de resposta do governo.
A expectativa do mercado é de que a estabilização dos preços dependa, sobretudo, de uma acomodação nas cotações do petróleo e na conjuntura geopolítica global.
Agora RN
